– Larith, entra, está
frio aí fora! – gritou sua mãe.
Ela então
passou seus pequenos dedos sobre as bochechas e correu para casa, parou por um
instante na porta da cozinha antes de avançar e abraçar a mãe que estava de
costas para ela.
– Eu te amo tanto
mamãe, não me deixe. – disse a garotinha, permitindo que as lágrimas
preenchessem novamente seu rosto.
– Por que eu te
deixaria querida? – falou a mãe abaixando-se e tentando conter a filha.
– Ninguém brinca
comigo! ...Ninguém gosta de ficar perto de mim! – choramingava.
– Vou estar sempre
com você querida, eu prometo.
O estranho
fato das crianças não brincarem mais com Larith se repetiu durante algum tempo,
porém tudo foi passando e ela foi crescendo.
Já estava na
idade de dezenove anos e nem tudo era igual como quando tinha seis. Agora
possuía amigos, poucos, mas tinha e frequentava uma boa universidade. Ela sabia
que tinha problemas, embora sempre preferisse guardar para si o que via.
Em uma noite
de sexta-feira, chegara cansada em casa e apenas se jogou na cama como de
costume, seu celular esboçou um chiado e isso a fez criar coragem para se
levantar e tentar pegar a bolsa a pouco jogada na poltrona no canto de seu
quarto. As paredes se mexeram e ela olhou em volta tentando entender o que
acabara de acontecer. Mexeram-se de novo.
E, sentindo seu coração acelerar, Larith viu as paredes se aproximarem
tentando prende-la, levou as mãos a boca na tentativa de abafar o grito. Sabia
que tudo havia começado novamente.
Bem cedo na
manhã seguinte já estava sentada na mesa para o café. É obvio que não dormira.
E na tentativa de quebrar o estranho silêncio da jovem, a mãe perguntou.
– O que houve para
levantar a esta hora? Caiu da cama
querida?
A garota demonstrando uma enorme irritação saiu da cozinha e
mesmo esbarrando no pai não se conteve em sair da casa.
– Qual o problema com essa garota? – perguntou o homem.
– Bem que eu queria saber.
Larith tinha
certeza que eles nunca entenderiam, alias ninguém era capaz disso. “É só fingir
que nada aconteceu”, pensou enquanto se sentava no velho balancinho.
Seu dia teria sido como todos os outros, a não ser pelo fato
de ter permanecido um pouco mais quieta e reservada, envolta nas lembranças da
noite anterior que lhe apareciam mesmo contra sua vontade.
Ao entrar no
quarto, deteve-se antes de olhar as paredes e por fim o fez após respirar bem
fundo. Tudo aparentava normalidade e enfim deitara-se na esperança de belos
sonhos. Horas mais tarde seus olhos abriram-se devagar e ela não pôde discernir
o som que atravessava seus ouvidos.
– O que é isso? – disse esfregando os olhos sonolentos.
O barulho
recomeçou e agora já se podiam associar melhor as coisas. A poltrona no canto
direito se mexia com mais velocidade soltando um rangido ridículo. E então, olhando
as paredes, percebeu que uma estranha silhueta negra se formava. Não apenas uma
e sim várias, que cresciam rapidamente enquanto os objetos do quarto eram
jogados ao chão com muita força, assustando-a demasiadamente e fazendo com que
soltasse gritos de medo e pavor.
– Larith! Larith! O que foi? – acudiu o pai, que entrou no
quarto seguido da esposa.
– Eles estão aqui papai. – disse tremendo.
– Não há ninguém aqui querida.
Ela permaneceu
encolhida na cama, e ao elevar o olhar percebeu que tudo estava arrumado. Não havia nenhum sinal das sombras.
– Foi só um pesadelo. – disse a mãe, passando os dedos nos
cabelos negros da filha. –Agora está tudo bem.
– Pode ficar aqui comigo mãe?
– Claro que sim querida. – falou lançando um olhar
significativo ao marido, que se retirou.
Mary já dormia
profundamente ao contrario da filha que não pregava o olho desde a visão que
tivera. A jovem posicionara-se deitada de costas para mãe e tentando se acomodar
melhor virou-se, deparando com uma visão aterradora. Ao lado do corpo
adormecido jazia um menino de aparentemente cinco anos, trajava um pijama velho
coberto de sangue e seus olhos eram de um vermelho incrivelmente vivo e mortal.
Entretanto, não era a primeira vez que essa pequena criatura lhe aparecia, na
verdade ele a perturbava desde a infância fazendo as outras crianças se
afastarem dela. Segundos depois de ter reconhecido seu fantasma habitual,
Larith tentou despertar a mãe sacudindo-a, sendo a força utilizada proporcional
ao desespero vendo que ela não acordava. Em um salto desajeitado pôs-se de pé e
saiu do quarto correndo, porém ao chegar ao corredor sentiu uma mão
extremamente fria tocar-lhe levemente o braço fazendo-a parar. Não viu ninguém
atrás de si e tentou avançar, mas a mão voltou a lhe tocar agora com mais
intensidade e acompanhada de varias outras que agarraram seus braços e pernas
impedindo-a de se locomover. A garota lutava e dava minúsculos passos em
direção ao quarto de seu pai, no caminho algo liquido caiu em sua testa, olhou
para o teto e viu que estava vazando uma quantidade abundante de uma água
imunda, que escorria pela parede e inundava o chão.
Estava
sozinha e exausta. Deixou-se levar pelas mãos e pelas sombras que a jogaram em
um canto na cozinha e a deixaram lá com frio e suja, enquanto rodopiavam
vitoriosas. Larith abraçou os próprios joelhos e continuou ali perdida no
terror de sua mente esquizofrênica.
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