segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sozinha

        As lágrimas escorriam enquanto ela se balançava no brinquedo do parquinho em frente a sua casa. Tudo parecia extremamente vazio, como se a tristeza tivesse se mudado para aquele lugar permanentemente.
 – Larith, entra, está frio aí fora! – gritou sua mãe.
        Ela então passou seus pequenos dedos sobre as bochechas e correu para casa, parou por um instante na porta da cozinha antes de avançar e abraçar a mãe que estava de costas para ela.
 – Eu te amo tanto mamãe, não me deixe. – disse a garotinha, permitindo que as lágrimas preenchessem novamente seu rosto.
 – Por que eu te deixaria querida? – falou a mãe abaixando-se e tentando conter a filha.
 – Ninguém brinca comigo! ...Ninguém gosta de ficar perto de mim! – choramingava.
 – Vou estar sempre com você querida, eu prometo.
        O estranho fato das crianças não brincarem mais com Larith se repetiu durante algum tempo, porém tudo foi passando e ela foi crescendo.
        Já estava na idade de dezenove anos e nem tudo era igual como quando tinha seis. Agora possuía amigos, poucos, mas tinha e frequentava uma boa universidade. Ela sabia que tinha problemas, embora sempre preferisse guardar para si o que via.
        Em uma noite de sexta-feira, chegara cansada em casa e apenas se jogou na cama como de costume, seu celular esboçou um chiado e isso a fez criar coragem para se levantar e tentar pegar a bolsa a pouco jogada na poltrona no canto de seu quarto. As paredes se mexeram e ela olhou em volta tentando entender o que acabara de acontecer. Mexeram-se de novo. E, sentindo seu coração acelerar, Larith viu as paredes se aproximarem tentando prende-la, levou as mãos a boca na tentativa de abafar o grito. Sabia que tudo havia começado novamente.
        Bem cedo na manhã seguinte já estava sentada na mesa para o café. É obvio que não dormira. E na tentativa de quebrar o estranho silêncio da jovem, a mãe perguntou.
 – O que houve para levantar a esta hora?  Caiu da cama querida?
A garota demonstrando uma enorme irritação saiu da cozinha e mesmo esbarrando no pai não se conteve em sair da casa.
– Qual o problema com essa garota? – perguntou o homem.
– Bem que eu queria saber.
        Larith tinha certeza que eles nunca entenderiam, alias ninguém era capaz disso. “É só fingir que nada aconteceu”, pensou enquanto se sentava no velho balancinho.
Seu dia teria sido como todos os outros, a não ser pelo fato de ter permanecido um pouco mais quieta e reservada, envolta nas lembranças da noite anterior que lhe apareciam mesmo contra sua vontade.
        Ao entrar no quarto, deteve-se antes de olhar as paredes e por fim o fez após respirar bem fundo. Tudo aparentava normalidade e enfim deitara-se na esperança de belos sonhos. Horas mais tarde seus olhos abriram-se devagar e ela não pôde discernir o som que atravessava seus ouvidos.
– O que é isso? – disse esfregando os olhos sonolentos.
        O barulho recomeçou e agora já se podiam associar melhor as coisas. A poltrona no canto direito se mexia com mais velocidade soltando um rangido ridículo. E então, olhando as paredes, percebeu que uma estranha silhueta negra se formava. Não apenas uma e sim várias, que cresciam rapidamente enquanto os objetos do quarto eram jogados ao chão com muita força, assustando-a demasiadamente e fazendo com que soltasse gritos de medo e pavor.
– Larith! Larith! O que foi? – acudiu o pai, que entrou no quarto seguido da esposa.
– Eles estão aqui papai. – disse tremendo.
– Não há ninguém aqui querida.
        Ela permaneceu encolhida na cama, e ao elevar o olhar percebeu que tudo estava arrumado. Não havia nenhum sinal das sombras.
– Foi só um pesadelo. – disse a mãe, passando os dedos nos cabelos negros da filha. –Agora está tudo bem.
– Pode ficar aqui comigo mãe?
– Claro que sim querida. ­– falou lançando um olhar significativo ao marido, que se retirou.
        Mary já dormia profundamente ao contrario da filha que não pregava o olho desde a visão que tivera. A jovem posicionara-se deitada de costas para mãe e tentando se acomodar melhor virou-se, deparando com uma visão aterradora. Ao lado do corpo adormecido jazia um menino de aparentemente cinco anos, trajava um pijama velho coberto de sangue e seus olhos eram de um vermelho incrivelmente vivo e mortal. Entretanto, não era a primeira vez que essa pequena criatura lhe aparecia, na verdade ele a perturbava desde a infância fazendo as outras crianças se afastarem dela. Segundos depois de ter reconhecido seu fantasma habitual, Larith tentou despertar a mãe sacudindo-a, sendo a força utilizada proporcional ao desespero vendo que ela não acordava. Em um salto desajeitado pôs-se de pé e saiu do quarto correndo, porém ao chegar ao corredor sentiu uma mão extremamente fria tocar-lhe levemente o braço fazendo-a parar. Não viu ninguém atrás de si e tentou avançar, mas a mão voltou a lhe tocar agora com mais intensidade e acompanhada de varias outras que agarraram seus braços e pernas impedindo-a de se locomover. A garota lutava e dava minúsculos passos em direção ao quarto de seu pai, no caminho algo liquido caiu em sua testa, olhou para o teto e viu que estava vazando uma quantidade abundante de uma água imunda, que escorria pela parede e inundava o chão.
        Estava sozinha e exausta. Deixou-se levar pelas mãos e pelas sombras que a jogaram em um canto na cozinha e a deixaram lá com frio e suja, enquanto rodopiavam vitoriosas. Larith abraçou os próprios joelhos e continuou ali perdida no terror de sua mente esquizofrênica.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Distantes

Terra, um monótono planeta azul largado no espaço, onde as pessoas vivem as suas rotinas contando sempre com um amanhã igual ao ontem e um ontem igual à semana passada, viver nesse planeta sempre foi algo normal e nem um pouco surpreendente.

Ruby, uma garota doce capaz de sentir prazer nas coisas simples da vida, diferente das outras pessoas, não segue uma rotina específica na cidade, prefere ficar em um campo sozinha lendo e criando histórias de ficção científica (o que acaba se tornando uma rotina querendo ou não) um dia Ruby estava como o de costume lendo seus livros embaixo de uma árvore até que o um vento bem forte faz com que o seu marcador de livro feito com o mais fino e delicado cetim azul voe em uma direção aleatória, fazendo ela imediatamente se levantar e correr atrás. O vento parecia não dar trégua, e depois de muitos passos cansados Ruby vê o seu marcador ficar preso na mochila de um garoto, mas não era um garoto comum, era Leon, o menino o qual ela admirava em silêncio. Apesar de não ter todos os pré-requisitos para ser considerado o menino mais bonito da turma, Leon possuía uma beleza pouco notada, diferente da dos outros meninos que pareciam ser gêmeos além de ser muito inteligente, o que atraía ainda mais a atenção de Ruby.

Leon vê a garota cansada à sua frente e percebe que era tudo por causa do delicado marcador de livro que estava preso na alça de sua mochila transversal, ele desata a fita e entrega à garota, ela aceita ainda ofegante e balança a cabeça com um sorriso encantador, foi ai que Leon se viu apaixonado por Ruby, ele pediu para que ela se sentasse e descansasse, ela aceitou e iniciou uma conversa com ele, viram que tinham muitas coisas em comum, mais do que pudessem imaginar e não demorou muito para que iniciassem um romance como os daqueles livros com o final feliz que a mãe de Ruby costumava ler. Viveram lindos e memoráveis momentos que seriam lembrados até o fim de suas vidas, pelo menos era o que eles planejavam.

Em uma noite de sexta-feira, no aniversário de um ano de namoro, Ruby e Leon estavam andando de mãos dadas no campo onde se conheceram, olhando para o céu estrelado os dois prometem se amar eternamente, Ruby diz:

- O dia em que eu esquecer de você me mate, pois já vou estar morta.

Leon olha nos olhos de Ruby e lhe dá um beijo de 12 segundos e são interrompidos por gritos de pessoas que corriam para longe do local, eles olham para o céu e nada mais era do que um meteoro gigante que estava prestes a colidir com a o monótomo planeta azul, Leon olha novamente nos olhos de Ruby e diz que a ama, não deu tempo dele ouvir a resposta, o meteoro abriu uma cratera à mais ou menos 1 quilômetro de distância deles, não houve uma explosão, parecia que o meteoro tinha sido estacionado e que não oferecia perigo algum à população mas uma enorme cortina de fumaça cósmica saiu dos buracos do objeto espacial e em instantes cobriu toda a face da Terra fazendo com que todas as pessoas, sem exceção, cedessem espaço em seus pulmões para alojar o ar extraterrestre.

Ninguém tinha em mente o perigo que esse gás era capaz de oferecer às suas vidas, Leon era uma dessas pessoas com dúvidas mas a dúvida maior que tinha no momento era onde que Ruby estava, ele procurou por toda a parte sem sucesso, então resolve voltar pra casa e procurar notícias dela por lá, nos noticiários só se falava sobre teorias sobre o gás misterioso, não demorou muito para que descobrissem com seus próprios olhos o que realmente ele era capaz, algumas pessoas adquiriram anomalias no corpo enquanto que outras simplesmente morreram, mas algo ainda mais extraordinário aconteceu e mudou totalmente a imagem que se tinha da humanidade, as pessoas que ficavam aparentemente ilesas, com o tempo, passavam a desenvolver habilidades fora do comum, e por sorte ou destino Leon foi uma dessas pessoas, ele viu seus músculos crescerem e seu corpo se modificar, até ficar parecido com um de seus admirados heróis de histórias em quadrinhos, percebeu também que não foram apenas os  músculos que cresceram mas também a sua força e resistência.

O mundo estava um caos, algumas pessoas não resistiram a tanto poder que lhe fora imposto e acabaram sucumbido às forças do mal, usando suas habilidades extraordinárias para ações totalmente egoístas, algumas dessas pessoas se agruparam e formaram clãs destinados apenas à práticas nefastas, outros usavam para o bem, mantendo assim o equilíbrio em meio a um mundo caótico. Leon com suas habilidades resolve então partir em busca de sua amada Ruby, pois todos os seus sentidos diziam que ela estaria viva em algum lugar lá fora, e eles não estavam errados.

Ruby caminhava em meio à carros destruídos em uma rua deserta, o seu olhar era vazio e seu rosto sem expressão alguma, como quem acabara de acordar de um coma de 10 anos não demonstrava um sinal de esperança ou mesmo de sentimentos. Leon sentia a presença de Ruby sempre pela manhã quando preparava os pratos preferidos dela em sua refeição matinal, enquanto que ela se entregava aos seus instintos naturais sem pensar duas vezes, um dia dois ladrões estavam torturando uma mulher que se recusava a entregar suas jóias, Ruby correu em direção aos ladrões e por impulso atacou-os e travou uma luta que era quase impossível de se imaginar que tenha sido iniciada por uma garota daquele porte físico, assim ela descobriu o seu poder, o poder da sobrevivência, contando com uma agilidade fora do comum. Ruby não tinha um propósito em sua vida, então resolve se tornar uma justiceira e ajudar as pessoas que precisassem de socorro.

Alguns dias se passaram, Leon ouve gritos de luta no outro quarteirão ele corre para ver quem era, ele avista ao longe longos cabelos negros saltando de um lado para o outro tão sedosos como o de Ruby, ele se aproxima e para a sua surpresa era a sua amada, sem pensar ele corre em direção à ela e grita o seu nome, ela derruba o último oponente e vira para Leon, com passos de gato vai se aproximando dele sem demonstração de afeto, Leon começa a perguntar o que estava acontecendo e se ela não estava o reconhecendo, um olhar frio tomou conta do rosto de Ruby que com um chute provindo de um mortal para trás tenta afastá-lo dela, Leon consegue esquivar o ataque, sem entender ele se afasta e em um passe vê Ruby fugir, o inimaginável aconteceu: Ruby não mais lembrava dele.

Depois de muitas teorias Leon chegou à uma conclusão, Ruby teria perdido a memória com a inalação da fumaça, ele então resolve tentar fazê-la recobrar a consciência pois ela já tinha se tornado a sua razão de viver. Ruby ao lutar contra um ladrão ficou em perigo e por pouco não escapa da morte, se não fosse a interferência de um misterioso homem com uma tatuagem de lua no braço esquerdo, ele se apresentou e disse que pertencia a um clã e que estava disposto a aceitá-la como membro para treiná-la e torná-la mais forte ainda, ela aceitou. Dias depois Leon se depara com Ruby de novo, dessa vez com trajes diferentes do habitual e com a tatuagem identificando-a como membro de uma sociedade, ao vê-lo ela, com movimentos ágeis, atacou-o deixando-o levemente machucado, ele não conseguiu reunir forças para lutar contra ela, pois seria incapaz de machucá-la mesmo que pusesse em risco a sua própria vida.

Ruby lançava ataques repetidamente enquanto que Leon, quando não sofria com os ataques, se esquivava e tentava lembrá-la de tudo que eles viveram juntos, nada parece adiantar, Leon percebeu que ao lutar Ruby falava números em ordem decrescente pausadamente, logo veio em sua mente: A garota é uma bomba! Ele tenta avisá-la a todo custo, mas nada adianta...Ele lembra das últimas palavras de Ruby antes do acidente e resolve tomá-las como ordem a ser seguida, então Leon abraça a garota, imobilizando-a com seus braços e descobre uma nova habilidade, ele pode voar, com isso, Leon se desaproxima cada vez mais do chão árido daquele planeta sem graça, cada vez que a altura vai aumentando Leon lembra dos momentos lindos os quais passou com Ruby inclusive o grande sonho dos dois de fazer uma viagem pelas estrelas, onde poderiam estar isolados tendo apenas que se importarem um com o outro. A distância do chão até o espaço não foi suficiente para que todos os momentos felizes passassem pela cabeça de Leon...Ruby tentava escapar dos braços de Leon mas todo esforço era inútil, Leon olhava nos olhos de Ruby enquanto se aproximavam de uma enorme estrela de fogo, mesmo sabendo que era impossível a propagação do som no espaço ele dizia suas palavras sinceras e doces à Ruby que o observava com um olhar vazio, o silêncio tomou conta dos dois, uma lágrima correu pelo rosto de Leon e caiu nas bochechas de Ruby mas logo se derreteu com o calor intenso do sol, faltavam apenas 6 segundos para que os dois chegassem ao sol quando Leon abre seus olhos e consegue ver de volta o rosto pelo o qual se apaixonou e lê em seus lábios: "Leon..."